
De pé atrás do balcão, lá pelas tantas da noite, pés feridos por sapato de couro barato, sufocada por um laço no pescoço, estafada pela jornada, dolorida pela posição, estressada pelos gerentes, assediada pelo porteiro, pressionada pelas metas, preocupada com as crianças, desiludida pelo saldo bancário, seguiu com os olhos o 895º cliente do dia. Da entrada até postar-se tete-à-tete, o 895 fez um percurso que lhe pareceu mágico, como quando se empurra a primeira pecinha de um dominó enfileirado. E a última peça era ela, responsável por finalizar aquele processo todo. Foi quando se deu conta de que aquela função que lhe parecia pequena, é parte de um grande conjunto, uma engrenagem mantida por conta de suas feridas, sufocos, estafas, dores, estresses, assédios, pressões, preocupações e desilusões. Então percebeu-se ativa, valorosa e cheia de possibilidades. Mandou o porteiro tomar no cu, cobrou a pensão do pai das crianças, deu para quem estava, há muito, com vontade de dar e abriu seu próprio salão de beleza na garagem de casa.